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Arquitetura ecológica: o Brasil ainda tem muito a aprender. Entrevista especial com Erwin Rezelman

O holandês Erwin Rezelman já viajou o mundo todo, morou por muitos anos no Japão e na China e, hoje, vive no Brasil. Presidente da SAP Brasil, líder mundial em software de gestão empresarial, ele é o responsável pela construção do novo prédio da empresa localizado no câmpus da Unisinos. Exemplar, a construção é ecologicamente sustentável. Baseado nessa experiência e em outras que teve para chegar a este projeto, Erwin conversou com a IHU On-Line sobre arquitetura ecológica, o mercado da arquitetura “verde”, as principais diferenças entre um prédio comum e um edifício sustentável e ambiente de trabalho. Segundo ele, o novo prédio da SAP teve a participação, durante a construção, daqueles que vão trabalhar nesse ambiente diariamente. Por isso, não é apenas um prédio ecológico, mas uma construção que respeita as necessidades do trabalhador no seu dia a dia.

Ao analisar o mercado da construção ecológica no país, Erwin disse que “o desafio no Brasil é que as tecnologias, mesmo bem desenvolvidas, ainda não estão disponíveis, porque o mercado está fechado, a tributação é muito elevada e ainda não há incentivos. E isso é uma espécie de barreira”. A entrevista foi concedida pessoalmente e, posteriormente, traduzida por Walter O. Schlupp.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o prédio da SAP, localizado no câmpus da Unisinos, se diferencia das construções comuns?

Erwin Rezelman – Uma diferença clara: quando começamos o prédio, dissemos que deveria ser com o mínimo de impacto no meio ambiente. Isto é, quando o construímos, precisamos cumprir certos requisitos. Optamos por seguir o código estadunidense para prédios verdes, isto é, o Leadership in Energy and Environmental Design – LEED, porque não existe um padrão comparável no Brasil. O LEED concentra-se na redução de consumo de energia, a começar pela construção. Nele há diversas categorias; escolhemos a categoria “construção nova”, o que significa que não só o prédio, mas também a operação do prédio precisa cumprir o padrão: reduzir o uso de energia, reduzir o uso da água, e, principalmente, criar um espaço confortável para se trabalhar. Isto não significa espaço muito amplo, mas grande quantidade de luz natural, para garantir luz suficiente sobre as escrivaninhas.

Temos automação que mede a quantidade de luz num lugar determinado, a qual será complementada por luz artificial, caso necessário, se não houver a quantidade suficiente de luz externa entrando. Isto é parte do que torna o prédio diferente. Também a aparência do prédio apresenta considerável diferença, por causa da combinação de materiais. O arquiteto Eduardo de Almeida, de São Paulo, usou materiais naturais, mas com algum concreto e vidro. Além disso, incluímos madeira, para criar uma sensação de escritório diferente. Normalmente, prédios de escritórios apresentam carpete industrial, forro industrial, ao passo que aqui usamos concreto exposto, muito vidro, para permitir a entrada de luz. Além disso, o prédio apresenta grande visibilidade: você pode olhar através do prédio todo. Apesar de serem dois blocos, você pode enxergar o outro bloco, as outras pessoas trabalhando, criando um ambiente muito aberto, onde as pessoas podem colaborar com facilidade e compartilhar suas ideias.

IHU On-Line – No Brasil isto é uma boa ideia, porque temos muita luz natural…

Erwin Rezelman – Com certeza, já está demonstrado que as pessoas trabalham com mais motivação sob a luz natural e quando podem olhar para fora, e penso que a Unisinos é um câmpus muito bonito, muito lindo, com muito verde. Por que não deixar isso entrar? Do ponto de vista arquitetônico, há muita discussão. Vemos prédios e projetistas incluindo cores muito vivas, amarelo, verde, alaranjado, azul. Tudo isso é muito moderno. Já aqui não, temos tonalidades mais naturais, temos uma porta cor de vinho, as cores vêm de fora, através das janelas, essas são as cores naturais, criando uma interação muito melhor, e isso é parte da ideia.

IHU On-Line – De onde veio a inspiração para se construir um prédio ambientalmente sustentável?

Erwin Rezelman – Eduardo de Almeida tem 72 anos. Brasília lhe dá muita inspiração, porque foi construída quando ele estava começando na arquitetura, então ele foi muito inspirado por essa arquitetura modernista de Brasília. Além disso, ele vem da USP, que é famosa por esse tipo de pensamento. Ao mesmo tempo, há versões extremas disso, que são muito modernistas e muito frias. Ele teve muito êxito em combinar elementos frios e quentes para criar uma concepção que faz com que você queira trabalhar aqui.

IHU On-Line – Os investimentos em um prédio verde são diferentes dos valores utilizados para a construção de um prédio comum?

Erwin Rezelman – Inicialmente sim. Mas você economiza, porque você usa menos energia, menos água, assim, na verdade, se consegue reduzir seu custo. No começo, especialmente no Brasil, foi bem mais caro, porque os materiais não estavam disponíveis. Falando de prédio verde, temos o arquiteto, temos a construtora, temos fornecedores, temos a empresa. Quase ninguém conhecia o LEED. Todo mundo lia sobre ele, mas ninguém tinha a experiência. É um processo de aprendizagem. Isto aumenta o custo, porque os fornecedores dizem: “Oh, concreto reciclado, o que é isso? Eu não conheço. Temos isso aqui, olha”.

No começo, alguns materiais entregues estavam incorretos. No fim, conseguimos usar materiais sem toxina alguma. As tintas são um exemplo disso. Quando você pinta uma sala, sente o forte odor de vapores. Não faz parte da nossa concepção usar essas tintas. A mesma coisa vale para adesivos. Todas essas coisas são diferentes, e isto aumenta o custo, porque precisamos importar, ou só tínhamos um único fornecedor, já que não há mercado grande aqui. Só para comparar: é interessante o que a China fez. Eu estive lá, antes de vir para cá, por quatro anos. Antes disso estive no Japão, portanto passei longo tempo na Ásia. Na China temos o mesmo problema: todos pensam que o “verde” está na moda, mas ninguém ainda tem os produtos ecológicos. Eles fizeram o seguinte: transformaram em lei os requisitos básicos de LEED, de modo que daqui a cinco anos esta será a lei para todas as construções. As companhias estão adotando esta medida. Isto significa que haverá fornecedores, porque precisam seguir a lei. Este não é o caso no Brasil. Portanto, se não existe exigência legal, vai ser muito difícil o fornecimento pelas empresas. Mas temos muitos fabricantes de móveis por aqui, por isso penso que será uma grande oportunidade para eles abraçarem esta ideia logo.

IHU On-Line – A SAP tem outros edifícios como este?

Erwin Rezelman – Temos um prédio com a certificação LEED na Filadélfia, nos EUA, mas este, no Brasil, é apenas o segundo que foi construído desta maneira. O prédio nos EUA recebeu a certificação somente depois de ter sido construído. Creio que este é o primeiro prédio construído como centro de desenvolvimento para a SAP, o outro é um escritório regional. Tanto o prédio dos EUA quanto o outro que temos na Alemanha já satisfazem muitos desses requisitos: vidro duplo, isolamento, luz natural. Assim, se quiserem certificar, não será difícil, porque o padrão do mercado é diferente. Mas no Brasil e na China a história é outra. Então é ainda mais importante tomar essa iniciativa.

IHU On-Line – Quais são os principais impactos ambientais que uma construção pode gerar?

Erwin Rezelman – Primeiro: o local onde o prédio será construído, pois precisamos verificar se não está destruindo algum habitat natural. Uma das coisas que fizemos aqui foi um estudo. Aqui tínhamos simplesmente um terreno plano, previsto para ser a extensão de um estacionamento, de modo que aqui nada havia, exceto postes de luz, que foram removidos pela Unisinos. Encontramos algumas árvores e as deixamos, nós as protegemos e não as removemos. Tivemos que remover apenas uma árvore, porque se achava no meio do prédio a ser construído. Nós a deslocamos, de modo que continua ali, viva. Então, essa é a primeira questão em termos de impacto ambiental. Onde não havia árvores, plantamos muitas, além de arbustos e grama, todos nativos do Rio Grande do Sul, ou seja, criamos parte da natureza.

Além disso, a construção em si usa materiais ecológicos. Este prédio apresenta pelo menos 40% de teor reciclado no concreto, no aço, na madeira etc. Na construção convencional não se faz isso. Outra questão é que durante a construção você gera muito refugo, que é jogado fora, não é reciclado de forma adequada. Nós separamos todo o refugo, reutilizamos quando possível ou levamos para os centros de processamento adequados. Outro aspecto na construção é que você gera muita poeira e sujeira. Caminhões transitando, por exemplo, deixam todo aquele rastro vermelho dos pneus. Todos os caminhões que saíam daqui tinham que lavar seus pneus para não levar para fora a sujeira. Quanto à poeira, com a água da chuva coletada borrifamos continuamente o chão durante a construção para evitar que a poeira saísse voando para a Unitec e outros vizinhos. Penso que estes foram itens centrais que fizeram diferença.

IHU On-Line – Quais são os paradigmas da arquitetura ambiental, hoje?

Erwin Rezelman – Quando construímos este prédio, nós nos demos conta de que é necessária uma cooperação enorme entre arquitetura, construção e fornecedores. Constatei que no Brasil a arquitetura tradicional é assim: o arquiteto faz o projeto e o conclui, pronto, afasta-se. O arquiteto não se envolve muito. Depois ele vem para a festa de inauguração. Mas aqui percebemos que, por causa da concepção “verde” e por causa das mudanças, precisávamos de discussão o tempo todo: com a construtora, com os arquitetos, com o cliente e também com os fornecedores. Então penso que esta é uma mudança considerável, transforma-se numa solução e precisa de integração. Você não pode separar “esta é minha parte, esta é a tua parte”, pois as coisas se sobrepõem bastante.

Para este prédio usamos um conceito chamado ideação, que significa que o usuário fica muito envolvido na questão de como o lugar de trabalho estará organizado. E isto também faz parte do processo de certificação para LEED. Para isso você precisa ouvir muito. Infelizmente, muitas empresas de arquitetura no Brasil são pagas pelos fornecedores da seguinte maneira: “use meus móveis que eu lhe darei tanto e tanto”. Isto não significa necessariamente que eles estão dando atenção para os usuários. Neste caso, nada disso estava acontecendo; eram os funcionários que diziam: é disso que eu preciso, e então os arquitetos tinham que achar a solução adequada. Então, as empresas de móveis ficaram muito envolvidas. Esta é uma diferença. Normalmente os arquitetos decidem tudo, dependendo das “promoções” que recebem; neste caso as coisas foram separadas, quem fica no centro das decisões é o usuário, sendo que LEED é o fio condutor que permeia tudo, o que faz a diferença.

Penso que a arquitetura ecológica é aquilo que fazíamos há muitos anos. Então, as cidades começaram a crescer e todas essas coisas foram descartadas. Se você observar a forma como se construíam cabanas na floresta antigamente, tudo se baseava no uso de materiais naturais, na reutilização, na criação de um ambiente aconchegante, porque não havia calefação, era preciso fazer paredes grossas, usar a luz do sol, elementos naturais. Agora muitas dessas coisas estão voltando. Precisamos voltar a aprender coisas que esquecemos. Ao mesmo tempo, a arquitetura quer fazer afirmações de grandiosidade. Aqui tentamos fazer um prédio que não seja grandioso, ele é bonito, mas não apresenta elementos sofisticados, se encaixa bem no ambiente. Esta é uma parte importante da arquitetura ecológica que estamos vendo hoje.

IHU On-Line – Em sua opinião, como grandes cidades, como São Paulo e Nova Iorque podem ser ecologicamente sustentáveis, a partir da sua arquitetura? Elas conseguiriam mudar o que são hoje?

Erwin Rezelman – Sim, mas devagar. Por exemplo, é importante transformar em lei as exigências básicas do LEED. Então todo mundo vai se concentrar na sustentabilidade ao construir um edifício. Algumas empresas estrangeiras que construíram edifícios em São Paulo, quando estão construindo, seguem o LEED. Talvez os ocupantes do edifício não o façam, mas pelo menos a construção foi feita de acordo. Todos os edifícios novos deveriam seguir essa filosofia. Ou mesmo em prédios antigos podemos fazer muitas coisas: trocar as janelas, adotar telhados verdes para reduzir a perda de calor, usar painéis solares.

Mas o desafio no Brasil é que as tecnologias, mesmo bem desenvolvidas, ainda não estão disponíveis, porque o mercado está fechado, a tributação é muito elevada e ainda não há incentivos. E isto é uma espécie de barreira. Então, se você quer fazer um edifício verde, muitas empresas pensam no curto prazo, que o custo será muito elevado e acabam desistindo. Na Alemanha, onde temos nosso outro escritório, assim como nos EUA, há muitos incentivos fiscais, acabamos de instalar painéis solares lá. Mais uma vez: recebemos incentivos. Outro item que já vemos por aqui, também no aeroporto em São Paulo, é usar sensores para o consumo de água, de modo que você não use mais água do que precisa, todas as privadas têm descarga dupla, uma grande e uma pequena. São detalhezinhos que todos os prédios poderiam ter.

IHU On-Line – Quais os caminhos a arquitetura deve tomar a partir da nossa realidade ambiental atual?

Erwin Rezelman – Incluir. Penso que estamos excluindo o nosso verde para dar espaço ao concreto, o que é uma perda. As coisas estão mudando, precisamos incorporar. Por isso, temos um jardim interno aqui. Os prédios antigos já faziam isso, tinham um pátio interno verde. Os prédios novos agora querem maximizar o espaço em detrimento do prazer. Se minimizamos o prazer, perdemos motivação, atenção, atração dos funcionários, porque é muito estressante simplesmente ficar num ambiente de concreto, só com luz artificial, sem o verde. Portanto, precisamos incorporar mais, como era antes. Teremos menos escrivaninhas, porém mais motivação.

Não queremos causar impacto. Não construímos um prédio verde para fazer propaganda. Este não é o objetivo. Mas queremos sim contribuir para a conscientização. Durante a implementação, recebemos visitas e temos a esperança de que isto se reproduzirá em outros lugares, em outras novas construções. Sabemos que a Unisinos está estudando isto. Apresentamos palestras para o departamento de engenharia de São Leopoldo. Um grande passo a ser dado em seguida numa cooperação conosco é um programa que a Unisinos está lançando na área de energia. Ou seja, procurar fontes de energia renovável. Assim, precisamos que o governo ajude a tornar isto mais acessível, de modo que possamos trazer essa tecnologia ainda não disponível no Brasil, precisamos aprendê-la, abrir o mercado, permitir que essa tecnologia entre, porque é um benefício para nós, para nossos filhos, para nossos netos, mesmo que seja difícil pensar sobre o futuro.

(Ecodebate, 10/08/2009)



Notícia publicada em 10/08/2009.








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