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Pelas Terras e pelas Águas: Romaria reúne mais de 7 mil pessoas e alerta para o agravamento das questões ambientais

Eliovandro Gaspar trabalha em sua cidade, Lapão (BA), no Instituto de Permacultura em Terras Secas. Sua principal função é combater a desertificação que assola a sua cidade e que, recentemente, fez com que o INGÁ (Instituto das Águas e Clima) proibisse a utilização das águas captadas em mananciais subterrâneos na sub-bacia do riacho do Jaú, que abrange os municípios de Lapão, América Rodrigues, João Dourado e Irecê. “Rebaixamento do lençol freático, rachaduras na terra…, tudo isso é resultado do uso inconseqüente da água e dos recursos naturais”, alerta Eliovandro. Os graves problemas ambientais que constata na sua cidade, ele teve a oportunidade de discutir na 32ª edição da Romaria da Terra e das Águas.

Com o tema “Do ventre da mãe Terra um clamor pela vida”, o evento reuniu mais de 7 mil pessoas durante os dias 3, 4 e 5 de julho, na cidade de Bom Jesus da Lapa (BA). O agravamento das questões ecológicas no estado, principalmente a destruição dos biomas da caatinga e do cerrado pela expansão do agronegócio e dos grandes projetos industriais, foi uma das principais discussões do evento.
Participando da Romaria pela segunda vez, Eliovandro vê nesse encontro a oportunidade de discutir, formar idéias, mas também de mudar a realidade em que vive. “É como Leonardo Boff fala em seu livro: ‘vamos cuidar do meio ambiente, se não for pelo amor, será pelo sofrimento’”.

Luciano Bernardi, membro da Coordenação Geral da Romaria, concorda: “Quem participa dessa Romaria vai para rezar, mas também para discernir sobre a realidade. É um encontro com Deus e com as problemáticas da terra, das águas e do atual modelo de desenvolvimento econômico”, explica. A romaria é conhecida por ser um espaço para debates políticos relacionados, principalmente, à temática do campo brasileiro. Nos sete “plenarinhos” realizados esse ano (CEBs, Terra, Juventude, São Francisco, Política, Territórios tradicionais, Cerrado e caatinga), houve espaço para refletir o atual modelo de reforma agrária e as perspectivas dos movimentos sociais para as políticas implementadas no campo.

Um público jovem e diversificado, formado, em sua maioria, por trabalhadores e trabalhadoras do campo, além de integrantes de comunidades tradicionais (quilombolas, índios e comunidades de Fundo de Pasto), teve a oportunidade de refletir sobre os assuntos a partir da sua realidade. “Cada comunidade traz informações e a gente discute e encontra soluções”, explica Maricélia de Jesus. Natural de Vitória da Conquista, ela relata que já perdeu as contas de em quantas romarias esteve.

Outra participante de longa data é Gabriela Nogueira. Coordenadora do grupo Juventude Missionária Obra Pontifícia, do município de Bom Jesus da Lapa, ela explica sem rodeios as razões de sua presença constante. “Essa é a romaria da consciência política, social e comunitária”, define. O plenarinho do qual participou foi o que teve maior público e animação no evento: o da Juventude.
O patrono dessa 32ª Romaria foi D. Helder Câmara, Arcebispo Emérito de Olinda, que se estivesse vivo completaria 100 anos. “Assim como D. Helder, acreditamos que o povo pobre e crente deve ser o protagonista da transformação”, afirma Bernardi.

A visibilidade que as comunidades tradicionais vêm conquistando, na resistência e afirmação em seus territórios de identidade, como os quilombolas, os indígenas e os Fundos de Pasto, também foi tema de análises, tanto no plenarinho do São Francisco, quanto no dos Territórios tradicionais.

Seu Fugêncio Soares, de 72 anos, estava participando pela primeira vez da Romaria. Ele faz parte do grupo de reisado da comunidade de Velame, no município de Vitória da Conquista e com a sua viola cantou reisados e se impressionou com o evento. “O pessoal é unido, acho que vai contribuir para fazer um movimento de família”, explicou de maneira simples. Já Reinilda Magalhães do Quilombo Pau Darco Parateca, no município de Malhada, notou que as várias comunidades quilombolas compartilham do mesmo problema. “Os conflitos são sempre os mesmos, as agressões são parecidas”.

Um dos problemas mais recorrentes, principalmente para as comunidades quilombolas localizadas ao longo da Bacia do Rio São Francisco, é a dificuldade para a regularização das terras. Segundo estudo realizado pelo geógrafo da USP, Ariovaldo Umbelino, cerca de 60% das terras ao longo da Bacia do Velho Chico são públicas. “As pessoas criticam tanto o racismo, mas você vê que a justiça não prioriza os quilombolas”, reflete Eliovandro, que participou do plenarinho do São Francisco.

Além das comunidades quilombolas, representantes de outras comunidades tradicionais da bacia do “Velho Chico” também estiveram presentes, como os índios Xakriabás do município de São João das Missões (MG). Lá os índios compartilham dos mesmos problemas: a grilagem e a demora para a regularização das suas terras.

Os Xakriabás estão entre os 33 povos indígenas que vivem ao longo da bacia do São Francisco e que juntos, através da Campanha Opará, têm reivindicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) o julgamento de ações pendentes relacionadas às infrações que o Projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco tem cometido. A obra passa por terras indígenas e segundo a Constituição brasileira, empreendimentos dessa natureza devem ser precedidos de uma consulta ao Congresso Brasileiro, o que não aconteceu. Na ocasião, panfletos foram distribuídos aos romeiros para participarem da Campanha, através do envio de Petições ao STF, pela internet ou pelo correio.

Informe Terra Vida On-line nº 03, CPT Bahia | Comissão Pastoral da Terra – Regional Bahia, publicado pelo EcoDebate, 30/07/2009



Notícia publicada em 30/07/2009.








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