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Mistério em Porto Alegre

Havia a ‘Rua do Poço’ em Porto Alegre; havia também a ‘Travessa do Poço’. Lá existia, por óbvio, um poço para abastecimento da população, já que o DMAE estava décadas de distância. Isto no século XIX. Na verdade deveria haver mais de um poço ativo para abastecimento público, além da fontes. Então, as aglomerações urbanas usavam de tais expedientes – poços e nascentes. Até hoje há algumas nascentes em uso, como na Glória e na Petersen Jr., estas motivo de curiosidade e de notícia – algo de outro mundo ou outra civilização, com poderes miraculosos, curativos e revigorantes. Inimaginável para os padrões de hoje de água insípida, incolor, inodora, transparente – e que sai da torneira, sem brotar do chão. Bem, nem sempre tão inodora nem tão insípida, principalmente em verões secos.

Água é alimento, pois somos constituídos de água e de íons, e também meio de higienização, apesar de os adolescentes não acreditarem muito nisto. Mas, por outro lado, é veículo e hospedeiro de doenças. Daí os critérios de sanidade, hoje determinados pelo Ministério da Saúde e fiscalizados pela Secretaria de Saúde. Tem que atender padrões organolépticos e fisiológicos, estéticos e sanitários. Não pode conter toxicidade, salinidade e patogenicidade. Chamamos isto de potabilidade. Alimenta e preserva a saúde.

Suponho que o poço da então rua do Poço deveria ser um poço escavado, esses de grande diâmetro e que aparecem nas pinturas. São poços superficiais de alguns metros de profundidade, feitos por leigos vaqueanos. Claro que as condições de higiene deveriam ser precárias. Os baldes de recolhimento da água deveriam circular pelo chão, sendo introduzidos in natura; coisas deveriam acontecer no entorno (como lavagens ou outras piores) e o que mais pudermos imaginar (jogar gato/rato morto dentro). Ainda bem que um Bin Laden não vinha para estas paragens. O isolamento do poço para evitar a entrada de água de superfície deveria ser zero. Não é à toa que epidemias de hepatite, infestação de vermes, intoxicações e que tais deveriam ser comuns. Bota diarréia, dor de barriga, indisposição, dor de cabeça; mas dor de cotovelo ou em partes mais superiores eram por outras causas; nem tudo provem da água. Como sempre, a culpa era – e é – do fígado. E, ainda, deveria haver o caso do bebê azul, devido a intoxicação por nitrato, proveniente de rejeitos humanos. A vantagem era a de que a Santa Casa era próxima, já que cidade era pequena.

O mistério da rua do Poço, soluciona-se. Hoje, chama-se rua Jerônimo Coelho – por coincidência muito a freqüentei na minha juventude, mas sem saber do fato. Vai da Assembléia Legislativa à rua Dr. Flores; tem uns quinhentos metros. A travessa também é locada: era o primeiro trecho da hoje Borges de Medeiros, entre a Duque e a Ricachuelo (Coruja, Antigualhas). Dá para entender. Esta área é relativamente plana tendo contíguo um alto, dado pela Duque; ou seja as águas infiltradas aí acumulam-se. Era, originalmente alagadiça (Rua do Pântano), tendo sido aterrada (circa 1840).

E o poço, cadê-lhe-que-fim-levou? Creio que ficava próximo da Borges, com Jerônimo, ou mesmo na própria hoje Borges. Não há vestígios, não há registro – que eu saiba. Ninguém se interessou por pintá-lo, certamente não havia projeto nem licença na prefeitura. Era um aproveitamento de um recurso natural necessário e disponível. É parte da história que se vai. De qualquer maneira, o poço já estava lá, por volta de 1780.

Cadê o poço que estava aqui? O bicho levou? O gato comeu?



Notícia publicada em 25/09/2008.








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