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Uma reserva ameaçada por falta de gestão

Apesar de não serem vistas, as águas subterrâneas, consideradas reservatórios potáveis, podem estar sendo desperdiçadas com a desordenada perfuração de poços

A falta de água potável tem tomado o papel principal no cenário de discussões sobre problemas ambientais. A problemática, definida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como a mais grave do mundo, também preocupa quem mora no extremo oeste catarinense e vivenciou, de dezembro de 2011 até maio deste ano, mais um período prolongado de estiagem.

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Nesses momentos enfrentados pelos municípios em oito dos últimos doze anos, ressurgem mais veementes as preocupações com as formas de utilização do recurso, que é público. E, embora nem sempre a utilização das reservas subterrâneas esteja em pauta, já há consenso de especialistas de que deveria estar.

A utilização de águas subterrâneas - cujo pioneirismo é atribuído aos chineses, que já perfuravam poços de centenas de metros de profundidade cinco mil anos antes de Cristo - é tida até hoje como uma opção eficaz para o abastecimento de propriedades urbanas e rurais já que, geralmente, essas reservas são de boa qualidade e representam custos menores para captação, adução e tratamento.

Contudo, o crescimento desordenado do número de perfurações de poços e o aumento considerável da utilização da água subterrânea nos últimos anos, enquanto poderiam ser exploradas outras formas para o abastecimento público, têm provocado também a poluição desses reservatórios.

A constatação pode ser feita por meio de análises do laboratório de Pesquisa e Diagnóstico em Microbiologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), campus de São Miguel do Oeste, que vem prestando serviços para a comunidade regional desde 2003.

De acordo com a bióloga e pesquisadora, responsável pelo laboratório, Eliandra Mirlei Rossi, as análises feitas em poços particulares, de condomínios, prefeituras, sindicatos, escolas, hospitais, entre outras instituições, de uma forma geral, têm revelado que aproximadamente 70% das amostras estão impróprias para o consumo humano, se considerados os padrões estabelecidos pelo Ministério da Saúde.

Ela destaca que de 2006 a 2010 foram analisadas 639 amostras. Destas, 479 foram coletadas de poços rasos - com até 30 metros de profundidade - e 160 em poços semiartesianos - com 80 metros ou mais. Os resultados demonstraram que 73,71% dos poços rasos tinham água imprópria para o consumo humano, enquanto nos poços semiartesianos a proporção chegava a 23,75%.

Em outro trabalho realizado, entre os meses de novembro e dezembro de 2011 e também janeiro deste ano, em 70 propriedades rurais do extremo oeste, a responsável pelo laboratório enfatiza que apenas três das amostras foram consideradas impróprias para o consumo humano. “Os diversos trabalhos realizados pelo laboratório durante todos esses anos demonstram que apesar dos dados encontrados nas análises laboratoriais, mais de 80% dos proprietários classificam a água que bebem como ótima ou de boa qualidade, e poucos filtram ou fervem a água antes de consumi-la”, comenta.

 

Coliformes fecais são uma das causas de contaminação

Os micro-organismos encontrados nas amostras de água coletadas em poços da região, segundo informa a responsável pelo laboratório de Pesquisa e Diagnóstico em Microbiologia da Unoesc, Eliandra Mirlei Rossi, são coliformes totais e os termotolerantes.

Os coliformes totais são grupos de bactérias que podem ou não necessitar de oxigênio e são associados à decomposição de matéria orgânica em geral. Já os coliformes fecais, também chamados de termotolerantes, pois toleram temperaturas acima de 40°C, estão associados às fezes de animais de sangue quente, inclusive o homem. “Essas bactérias são utilizadas como indicadoras de qualidade de água, pois denotam a possibilidade da presença de patógenos de origem intestinal que podem ser transmitidos através de águas contaminadas e causar diversas doenças de origem gastrointestinais”, explica.

Segundo ela, a quantidade de coliformes na água de superfície é influenciada por vários fatores ambientais, como as condições de proteção próximas ao poço e o escoamento de águas pluviais. “Por isso, em geral, a quantidade aumenta após a chuva”, argumenta, ao frisar que, internamente, as condições físico-químicas e biológicas em reservatórios também desempenham um papel importante no controle do crescimento de coliformes, que geralmente diminui com a elevação da  temperatura da água, o aumento de PH e a escassez de nutrientes, bem como, com a predação e parasitismo.

Para o geólogo da Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan), Vitor Hugo Cereza, os poços perfurados por empresas idôneas, cadastradas na Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (Abas), são mais seguros quanto ao caráter construtivo e têm menor possibilidade de serem contaminados. “Os poços que não possuem um perfil construtivo dentro das normas vigentes da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) podem ser contaminados com maior facilidade”, entende.

Ele salienta que poços desativados devem ser selados para não se tornarem fonte de contaminação do aquífero. As mesmas empresas que fazem a perfuração de poços também podem realizar esse processo.

Fonte: Folha do Oeste



Notícia publicada em 02/07/2012.








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