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O Cerrado está secando

Adensamento populacional, avanço da agropecuária e hidrelétricas ameaçam atual tranquilidade hídrica da região

As primeiras civilizações se desenvolveram próximas a rios. Exemplo da importância da água para a vida. Cuidar da água é cuidar de nossa espécie. Os rios que banham o Centro-Oeste estão divi-didos em três grandes bacias hidrográficas, Amazônica, Tocantins-Araguaia e Bacia Platina.

A Bacia do Tocantins-Araguaia é dona dos recursos hídricos que desaguam nos rios Tocantins e Araguaia. A superfície da bacia é de 967.059 km², fazendo dela a maior entre as que se encon-tram totalmente dentro do território brasileiro. Ela está nos Estados de Goiás, Mato Grosso, To-cantins, Maranhão, Pará e o Distrito Federal.

As vias de movimentação das águas são análogas ao sistema circulatório humano. Até um volume d'água ser chamado de rio, foi um olho-d'água, filete, riacho, córrego, regato, ribeirão. Quando um rio seca, já morreram inúmeros olhos d'água, riachos, córregos, etc.

O geólogo e doutor em Ciências Ambientais Maximiliano Bayer revela que a disponibilidade de recursos hídricos no Cerrado naturalmente representa para a população uma cômoda situação em relação ao volume de água. "Quanto aos aspectos hidrográficos, a situação é relativamente confortável, ainda mais se compararmos com outras regiões do Brasil e do mundo onde a situ-ação se apresenta como uma verdadeira tragédia", avalia.

Apesar desses fatores naturais favoráveis, essa aparente "riqueza" pode estar ameaçada por muitos vilões, ainda mais quando o assunto é quantificar recursos hídricos.

A incerteza se apresenta de várias formas, na inexistência de séries históricas de dados hidroló-gicos nas bacias menores e na falta de continuidade e frequência da coleta de informações da quantidade de sedimentos das maiores bacias do Estado. Assim ainda não se tem implantado nas bacias goianas um sistema integrado que permita saber a real disponibilidade de água.

Goiás é o berço das águas, estão aqui: Bacia do Araguaia; Bacia do São Francisco e Bacia do Pa-raná, e o Aquífero Guarani, uma reserva subterrânea de água que tem 1,2 milhão de quilômetros quadrados e presenteia Goiás, entre outros Estados, com sua presença.

Futuro incerto

Se hoje a situação é satisfatória, não significa que estamos no caminho mais adequado. O aden-samento populacional urbano e o avanço da fronteira agrícola, além da mineração e outras fontes poluidoras, são aspectos que desequilibram a atual tranquilidade referente às fontes de água.

Nas cidades, as deficiências na coleta e tratamento de esgoto, a excessiva impermeabilização do solo e destruição das nascentes, são alguns dos vilões. Já no campo, preocupa o avanço das plan-tações sobre a vegetação nativa, a retirada de água por meio dos pivôs centrais, utilizados para ir-rigação de plantio. Sem deixar de citar também o uso incorreto de fertilizantes, a falta de zelo no descarte das embalagens de agrotóxicos, que muitas vezes contaminam o solo, e consequente-mente, o lençol freático.

É nesse ponto que o professor faz uma ressalva, "uma alta porcentagem dos recursos hídricos superficiais já apresentam características que poderiam comprometer as condições sanitárias da população. Num futuro não muito distante, a verdadeira riqueza estará representada pelas re-servas de águas subterrâneas e na gestão desse recurso. Ainda não avançamos muito e, quando acordarmos, o estrago pode ser muito grande" , conclui.

Outra ação do homem que altera a configuração dos rios é a construção de hidrelétricas. No site da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), consta a previsão de 28 novos empreendi-mentos do gênero no Estado. Sendo que dez estão em construção, e outros 18 com sua outorga assinada.

Degradação prejudica produtores

"A Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh) não tá fiscalizando os rios que mandam água para grandes pivôs. Goiás está sem pai e mãe na área do meio ambiente", de-nuncia Antonio Carlos Volpone, diretor da Organização Não Governamental Aece (Associação de Exploração de Cavernas e Elevações Pró Natureza), mais conhecida como Guerreiros da Natu-reza.

Ele chama a atenção para as consequências da falta de água na agricultura. "Muitos fazendeiros acham que desmatar, até lá dentro do rio, ele tá ganhando espaço para a lavoura dele. Não, ele está perdendo dinheiro. Porque ele não vai ter água pra fazer o pivô, a água do rio não vai aguentar tanto pivô, a cada ano a água dos rios está abaixando", considera Volpone.

A bióloga e analista Ambiental da Semarh Mary Joyce explica que a secretaria trabalha com um plano anual de fiscalização. Nele, estão previstas várias estratégias de atuação. São planejadas operações nos feriados e nas férias. Também faz parte do plano de fiscalização o atendimento às denuncias do Ministério Público ou recebidas por telefone. As denúncias são feitas, muitas vezes, pelos vizinhos que, excepcionalmente, vão pessoalmente à Semarh e até levam fotos. "São montadas operações específicas quando uma região tem muitas denúncias", complementa Mary Joyce.

Quanto ao atendimento da demanda, ela esclarece que houve avanços, "já melhorou bastante, são 246 municípios, nossa estrutura requer mais cuidado, principalmente recursos humanos, mas já melhorou bastante", reforça Mary Joyce.

A diminuição do volume das águas pode prejudicar tanto os pequenos produtores quanto os menores. Os maiores dependem da água dos rios para irrigação do plantio extemporâneo, a cha-mada safrinha. Já para os produtores de menores propriedades, a falta de água afeta sua rotina doméstica, vida dos animais e irrigação das lavouras.

A enchente que atingiu a cidade de Goiás, em janeiro de 2011, foi influenciada pelas mudanças climáticas. A analista ambiental Mary Joyce entende que o desmatamento é um dos fatores que contribuem para as enchentes, "com certeza, principalmente a árvore que está protegendo aquele espaço, quando você retira um item do ciclo, você desorganiza o ciclo", alerta.

Em um sentido mais resumido, o ciclo da água passa pelo processo de evaporação, precipitação, que são as chuvas, e escoamento superficial. Onde há florestas, as árvores diminuem a veloci-dade de circulação da água na terra, evitando o assoreamento dos rios.

Fonte : Diário da Manhã – Goiânia.



Notícia publicada em 20/06/2012.








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