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Águas subterrâneas secam em Cuiabá por ocupação irregular

As águas subterrâneas que abastecem mais de mil poços artesianos em Cuiabá e Várzea Grande estão se esgotando. Empresas, condomínios residenciais e órgãos públicos estão com poços totalmente secos e a única alternativa será reativar a rede de abastecimento de água da Companhia de Saneamento da Capital (Sanecap) que capta água do rio Cuiabá, trata e distribui para os cerca de 800 mil habitantes.

Alguns condomínios de luxo, situados na região do Jardim das Américas, que já tinham poços tentaram encontrar água perfurando outros pontos e não conseguiram mais. Especialistas em hidrologia e técnicos da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) dizem que será preciso fazer um estudo de geologia estrutural para avaliar a situação e verificar onde podem ser perfurados novos poços e alertam que a características hidrogeológicas da Grande Cuiabá não permitem o armazenamento de águas subterrâneas em grandes proporções.

Além disso, a ocupação urbana tem impedido o reabastecimento do aquífero e, em alguns lugares, existe contaminação por coliformes fecais, excesso de ferro e sais minerais. Um dos últimos poços artesianos lacrados por contaminação e abandonado por falta de água está localizado na Câmara Municipal de Cuiabá.

O professor da Faculdade de Geologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Renato Blat Migliorini, estudou há 10 anos a área e avaliou a potencialidade, condições de ocorrência, qualidade físico-química e bacteriológica das águas subterrâneas das regiões metropolitanas de Cuiabá e Várzea Grande. Renato explica que a região está inserida no Grupo Cuiabá, formado por rochas metamórficas de baixo grau, de idade Pré-Cambriana. O subsolo possui veios de quartzo que recortam as rochas e exercem papel relevante no fluxo e armazenamento das águas subterrâneas na região.

Com base em 400 relatórios técnicos de poços tubulares profundos e reconhecimento da geologia no campo, o pesquisador afirma que o Grupo Cuiabá, na região de Cuiabá e Várzea Grande, é livre, heterogêneo, se comportando não como um aquífero propriamente dito, mas sim como detentor de zonas aquíferas. A água fica depositada nestes veios e flui pelas rochas até chegar nos córregos e rios, mas nesta região a condutividade hidráulica da água é muito irregular.

“A ocupação urbana tem sido irregular, impedindo o reabastecimento de um aquífero que já não é bom. Muitos poços já foram perfurados e secaram e outros nem conseguem chegar nestas fraturas. Por isso, é necessário gerenciamento das águas subterrâneas”.

Migliorini confirma que no centro de Cuiabá as zonas aquíferas praticamente se esgotaram e a impermeabilização do solo, com asfalto e cimento, impede que as águas das chuvas sejam absorvidas pelo solo e abasteçam os poços. Os bairros Jardim das Américas e o Primeiro de Março são áreas já conhecidas pelos órgãos públicos por terem problemas de falta de água subterrânea. As melhores condições estão localizadas nos metarenitos. Na região Sudeste de Cuiabá são encontrados nos bairros Pascoal Ramos, Parque Nova Esperança, Pedra 90, Distrito Industrial, São Francisco, Quebra Pote. Enquanto que, em Várzea Grande, as melhores condições foram localizadas nas imediações do aeroporto Marechal Rondon e nos bairros Cristo Rei, Perineiro e Costa Verde.

O diretor comercial da Sanecap, Dejair Soares, diz que as regras para se conseguir autorização para perfuração de poços em Cuiabá mudaram justamente para evitar o esgotamento e a contaminação destas águas. “Cuiabá virou um queijo suíço, tem muitos deles sem licenciamento. O que vamos fazer é não mais autorizar a perfuração de novos poços se no local solicitado a rede de abastecimento suprir as necessidades. Estamos agendando uma reunião com a Sema, que faz o licenciamento e a anuência, e esta autorização vai partir da Sanecap e não mais da Prefeitura de Cuiabá”.

Além da capacidade – A exploração de poços em Cuiabá e Várzea Grande foi muito além do que as zonas aquíferas suportam em função do baixo processo de recarga, topografia e baixa distribuição, diz o geólogo da Superintendência de Infraestrutura, Indústria e Serviços (Suimis) da Sema, Nédio Pinheiro.

Segundo estudos feitos pelo professor Renato Migliorini o balanço hídrico desta região, estimando o volume de recarga profunda, era em torno de 1.603.504.000 m3/ano. Já com relação a produtividade de aquífero na região de Cuiabá e Várzea Grande, chega a ter 54%, classificada como fraca a média.

Contaminação – A profundidade do nível de saturação em grande maioria da região de Cuiabá e Várzea Grande é inferior ou igual a 15 metros, o que indica que as águas subterrâneas estão sujeitas a contaminação. Esse é um dos motivos para a polêmica com relação a escolha de uma nova área para implantação de um novo aterro sanitário em Cuiabá. Atualmente, o aterro construído há 13 anos fica na região do Coxipó do Ouro, uma das poucas na cidade que detém grande concentração de zonas aquíferas. Se por um lado a área é indicada por ter sido degradada há 200 anos com garimpos de ouro, é preocupante por ter muita água subterrânea. São estas águas que abastecem os rios e córregos na época de seca e mantém a vida aquática. As análises físico-químicas mostraram algumas concentrações elevadas de ferro nas águas subterrâneas, decorrentes da lixiviação do solo laterítico característico do Grupo Cuiabá.

As análises bacteriológicas mostram uma elevada contaminação por coliformes nas águas subterrâneas, devido a problemas de saneamento básico, inadequadas técnicas construtivas dos poços tubulares e ao meio fraturado.

“Também devemos ressaltar que quando as bactérias e vírus são transportados com a água subterrânea no meio poroso, elas são removidas por filtração e absorção (adesão de moléculas), sendo assim, relativamente imóveis em meio poroso, penetrando pequenas distâncias. Porém, no meio fraturado, que é o caso de Cuiabá, as distâncias alcançadas podem ser muito grandes. Esse problema é muito importante, haja visto a situação do saneamento básico na região, onde encontramos córregos que funcionam como canais de esgoto in natura”.



Notícia publicada em 05/07/2010.








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