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Relação entre água e clima pode servir para conciliar conflitos que atrapalharam negociações em Copenhague

Pergunte ao prefeito de uma cidade na Cordilheira dos Andes sobre o resultado das negociações do clima que aconteceram em dezembro em Copenhague e provavelmente você vai receber uma resposta superficial. Pergunte sobre a queda dos níveis nos reservatórios de água doce locais e você receberá uma bronca.

A razão disso está no cerne das discordâncias que dividiram os países industrializados e em desenvolvimento e impediu um acordo vinculativo para reduzir o aquecimento global. Mas o fato também oferece um caminho para uma abordagem mais produtiva na colaboração dos países dos hemisférios norte e sul em matéria de alterações climáticas.

Na América Latina, a água é mais fortemente ligada ao potencial de competitividade econômica e humana do que em qualquer outra parte do mundo. A região tem cerca de 31% dos recursos do planeta de água doce, sendo o lar de apenas 8% da sua população. Essa vantagem enorme de água permitiu que a América Latina receba 68% da sua eletricidade a partir de fontes hidrelétricas, comparados com uma média mundial de menos de 16%.

As exportações de mercadoria da região – na agricultura e na mineração – dependem de quantidades extraordinárias de água. Cerca de metade das exportações de carne bovina do mundo e quase dois terços de toda a soja vêm da América Latina, onde esses itens são mais baratos de serem produzidos, graças às chuvas tipicamente abundantes.

Mas após severas secas dos últimos anos, a vantagem de água tornou-se uma vulnerabilidade muito grande. Em 2008, a Argentina perdeu 1,5 milhões de cabeças de gado e cerca de metade de sua safra de trigo com a seca, enquanto a produção hidrelétrica na parte mais populosa do Chile caiu em 34%.

Mais recentemente, vastas regiões da Venezuela, Equador, Colômbia, Paraguai e México têm sido obrigadas a racionar água, cortar energia ou ambos. Esses esforços aprofundam a lacuna entre as pessoas com ligações de água em casa e as milhões de pessoas pobres latino-americanas que devem recorrer aos vendedores informais de água ou a cara água engarrafada.
Acredita-se que as últimas secas resultam de fenômenos climáticos cíclicos como o El Niño. Mas eles também são um presságio, porque os cientistas do clima concordam que as flutuações extremas de chuva estarão entre as primeiras e mais dramáticas consequências do aumento das temperaturas na América Latina.

A relação entre água e clima poderia servir para conciliar os conflitos de prioridades que atrapalharam as negociações em Copenhague. Primeiramente, como os países industrializados procuram as melhores maneiras de gastar os bilhões de dólares prometidos em ajuda para a adaptação às mudanças climáticas nos países em desenvolvimento, eles devem centrar-se em projetos para resolver a curto prazo problemas relacionados com o clima, como o abastecimento de água e saneamento.

Esse pragmatismo reconheceria a pressão sentida pelos líderes de países onde os elementos essenciais como saúde, educação e alimentação ainda não estão disponíveis para muitos cidadãos – e onde a meta de reduzir as emissões de dióxido de carbono continua a parecer um luxo. Isso também convenceria as pessoas nos países em desenvolvimento que os países ricos estão tão preocupados com a sobrevivência a curto prazo das crianças quanto com a saúde a longo prazo do planeta.

Esses objetivos não precisam ser mutuamente exclusivos. A Espanha, por exemplo, tornou-se líder internacional em promover energia eólica e solar como parte de suas políticas climáticas. Mas, no ano passado, o governo espanhol também criou um fundo de doação de US$ 1,5 bilhões que está financiando projetos de fornecimento de água e saneamento nas comunidades mais pobres da América Latina.

Estas subvenções estão ajudando a iniciar projetos de infra-estrutura crítica necessária em países como o Haiti, Guatemala e Bolívia. Elas têm alavancado também centenas de milhões de dólares em fundos adicionais do Banco Interamericano de Desenvolvimento e outros doadores.

Governos latino-americanos, por sua vez, devem começar a tratar a água como um recurso verdadeiramente estratégico, em vez de livre e ilimitado. No curto prazo, isto significa priorizar os investimentos e as reformas dos serviços básicos, a fim de reduzir o desperdício, reduzir o déficit de cobertura e eliminar doenças transmitidas pela água. Mas também exige a disposição de fazer concessões em busca de reduções das emissões globais que, com o tempo, poderiam ser fundamentais para garantir um fornecimento confiável de água.

A cidade de La Paz, na Bolívia, é um exemplo disso. Os doadores internacionais estão ajudando a financiar a expansão das redes de água e saneamento para bairros de baixa renda, principalmente os habitados por índios Aymara. No entanto, as geleiras que abastecem a cidade com água estão derretendo rapidamente, então o auxílio será usado para garantir novas fontes de água.

Sendo um país com grandes florestas tropicais, a Bolívia pode ajudar a diminuir o risco de mudanças climáticas catastróficas, juntando-se a programas para reduzir as emissões de dióxido de carbono causadas por desmatamento. Mas os bolivianos estão mais propensos a apoiar essas medidas se obtiverem provas de que os países industrializados estão empenhados em ajudar a conseguir uma qualidade de vida melhor.



Notícia publicada em 15/01/2010.








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